CAETANO VELOSO – DA TROPICÁLIA AO SÉCULO XXI

caetano1CAETANO VELOSO – Compositor com intensa atuação na área da Música Popular Brasileira (MPB), Cantork Produtor Musical, é sem dúvida um dos expressivos nomes na área cultural do Brasil, com intensa atuação e produtividade, em especial na segunda metade do Século passado.

Nascido Caetano Emanuel Viana Teles Veloso em 7/Ago/1.942 no município de Santo Amaro/BAHIA, Caetano notabilizou-se através da sua Arte desde muito jovem e, em especial, pelo Movimento Tropicalista (“Tropicália”), que liderou ao lado do colega Gilberto Gil e que representou, entre 1.968 e 1.969, uma ruptura de importância no panorama musical brasileiro.

De personalidade forte e opiniões incisivas, mesmo que às vezes equivocadas segundo alguns, Caetano tornou-se referência no que diz respeito à análise do panorama musical no Brasil, especialmente nas décadas de 1.970/80, envolvendo-se em inúmeras polêmicas e debates, expostas com destaque nas mídias da época – para muitos, uma forma inteligente de fazer seu “marketin pessoal”.

Fato é que suas opiniões foram valorizadas a ponto de criar-se no Brasil a expressão “o Caetano falou…” E em virtude, talvez, até da sua proposta estética, que abordaremos mais adiante, acabou muitas vezes por avalizar músicas e/ou artistas, em certos períodos, de qualidade questionável.

INFÂNCIA E INÍCIO DE CARREIRA

Filho de D.Canô e “Seu” Zezinho – ela, dona de casa, e ele, funcionário dos Correios, Caetano é o 5o. filho de uma família composta por 7 irmãos. Os pais, embora não ligados à carreira artística, foram sempre profundos admiradores da música popular. Conta Caetano, em certas entrevistas, que sua infância foi regada a muita música, que ecoava na residência da família diuturnamente. Isso lhe valeu um vasto conhecimento do repertório de música brasileira. Desse conhecimento valeu-se anos mais tarde, já contratado pela Rede Record de Televisão (SP). A Record investia muito em programas de auditório, dentre os quais “Esta Noite se Improvisa”, quando o apresentador (Blota Jr.) citava uma palavra e os participantes tinham que cantar uma canção que a contivesse. Caetano foi sagrado vencedor em inúmeras contendas. E foi em decorrência da influência musical que Caetano batizou a irmã mais nova, nascida  em 1.946. Encantado com uma canção gravada por Nelso Gonçalves, insistiu com os pais que o nome da irmã mais nova deveria ser Maria Bethânia, o que foi acatado. Bethânia, já em plena juventude, e talvez em retribuição, foi responsável pela alavancagem da carreira de compositor do irmão. Isso porque, apaixonada pelo canto e pelo teatro, estrelou em 1.964 o espetáculo teatral “Opinião”, cantando e gravando a canção “Carcará”, de João do Vale, que lançou-a nacionalmente. De quebra, trouxe o irmão mais velho para participar como músico do espetáculo, pois Caetano já tocava violão, que aprendera ainda na infância.

Caetano, inicialmente, aspirava por uma carreira no cinema, tendo sua atenção voltada para a música somente mais tarde. Tendo conhecido Glauber Rocha, responsável pelo Jornal “Diário de Notícias”, em Salvador/BA, escreveu inúmeras resenhas críticas para o cinema, e chegou mesmo a adentrar pelo mundo cinematográfico. No entanto, o sucesso da irmã, a amizade com os conterrâneos Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé levaram-no para a música. Com Gil, Gal e Bethânia, participou em 1.963 do show “Nós Por Exemplo” – um espetáculo semi amador ainda. Sua carreira musical teve início, concretamente, no ano de 1.965, com o lançamento do compacto simples que trazia as canções “Domingo” e “Samba em Paz”. Sempre antenado no “novo”, Caetano teve um “divisor de águas” em sua percepção musical, ao ouvir a gravação da bossa “Chega de Saudades”, com o conterrâneo João Gilberto. Ainda em 1.965, participou do I Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record. Mas o sucesso e o reconhecimento vieram mesmo 2 anos depois, com a terceira edição dessa promoção da Record, com a canção “Alegria, Alegria”. E com méritos, já que esta edição do Festival é, por muitos, considerada a maior expressão dos Festivais de Música dos anos 60. Vencido por Edu Lobo com “Ponteio”, aquela versão do Festival contemplou ainda canções como “Domingo no Parque” (de Gilberto Gil- 2a. colocada), “Roda Viva” (de Chico Buarque – 3a. colocada) e “Cantador” (da dupla Dori Caymmi/Nelson Mota – 5a.  colocada). O repertório do Festival trouxe ainda a canção “Maria, Carnaval e Cinzas” (de Luis Carlos Paraná), que, interpretada por Roberto Carlos, tornou-se naquele ano o maior sucesso da temporada.

ANOS 60, FESTIVAIS E “TROPICÁLIA”

caetano3Os anos 60 representaram no Brasil e no mundo, um período de grandes e profundas transformações que, fatalmente, refletiram-se nas Artes e na Música.A chamada “Revolução dos Costumes” fincava pé na juventude, com mudanças radicais de valores e comportamentos – a liberação sexual da mulher a partir do surgimento dos anticoncepcionais, a minissaia, o biquini, o Rock como expressão, os cabelos longos dos rapazes, os Beatles, os protestos contra a guerra do Vietnã… E, no Brasil, a juventude posicionava-se contra o rancoroso regime militar que se estabelecera em 1.964, através de um golpe, trazendo a restrição às liberdades, a Censura, as prisões arbitrárias e tudo o mais. Nesse efervescente contexto, a MPB foi tomada como bandeira de expressão para idéias e sentimentos. Estrategicamente, a TV Record mantinha, sob contrato, inúmeros artistas da Música, dos mais diversos estilos – Bossa Nova, Canção de Protesto, Jovem Guarda, MPB Tradicional. E, espertamente, os diretores da emissora fomentavam debates acaloradas, o que rendia audiências fantásticas. Os baianos formavam também sua corrente. Caetano, Gil e Gal haviam realizado um show na FENIT (Feira Nacionhal da Indústria Têxtil) em São Paulo, onde uma das indústrias participantes lançara a coleção “Tropicália”, composta por tecidos de cores berrantes que integravam cores tropicais e psicodelismo (uma onda derivada do uso do LSD, um alucinógeno muito usado por artistas e intelectuais de vanguarda). E foi então que os baianos, unindo a ideia à influência dos Beatles e ao “antropofagismo” dos Modernistas de 22 (expresso na montagem da Peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade sob direção de Zé Celso Martinez Correia) lançaram, em 1.968, a “Tropicália”. 

A “Tropicália”, incompreendida por muitos quando de seu surgimento, foi liderada eminentemente por Caetano Veloso (fato reconhecido mesmo pelo seu parceiro de empreitada Gilberto Gil). Surgiu, oficialmente, com o lançamento do LP “Tropicália”, do qual participaram Caetano, Gil, Gal, Os Mutantes, Tom Zé, Torquato Neto, Capinam, e o maestro Rogério Duprat. Propunha-se a transformar a visão do papel da música popular, vista até então como mera expressão de sentimentos, ou bandeira ideológica (para os adeptos da esquerda política). Muito mais amplamente, incorporava à Música o papel da indústria e do consumo. Assim, representou um primeiro passo na direção da “globalização” da nossa música popular, incorporando as guitarras elétricas (expressão de “colonialismo americano” para as esquerdas), o consumo e a produção em larga escala dos produtos industriais, etc. Ao mesmo tempo, propunha-se a absorver as influencias culturais externas e, à maneira dos “antropofagistas” da Semana de 22, devolver à Sociedade uma Cultura nova, com a cara do Brasil. Os Tropicalistas foram ovacionados por uns, de mentalidade mais aberta, mas execrados por muitos, tanto das esquerdas como dos direitistas do Regime Militar. Ou seja, “vocês não entenderam nada”, como gritaria Caetano quando de sua participação no III Festival Internacional da Canção (Rede Globo), no célebre discurso no Teatro TUCA (SP), em 1.968, quando da apresentação da música “É Proibido Proibir”, estrondosamente vaiada pelo público e desclassificada pelo júri. Aqui, vale destacar que esta canção foi escrita por Caetano a partir de uma sugestão de seu empresário Guilherme Araújo, que vira o lema pixado numa foto de um muro de Paris, quando dos protestos dos estudantes em Maio de 1.968, que quase derrubaram o governo francês.

 

PRISÃO E EXÍLIO

Em fins de 1.968 iniciava-se no Brasil o período denominado “Anos de Chumbo”, com ocaetano5 endurecimento da ditadura militar. No dia 13/Dezembro daquele ano o General Costa e Silva baixava o famigerado AI-5 (Ato Institucional No.5), que fechava o Congresso, suspendia de vez as liberdades individuais (incluindo a suspensão do Habeas Corpus na área jurídica), estabelecia a Censura Prévia para a Imprensa e as Artes, e etc. A partir de então, os arautos da ditadura sentiram-se à vontade para reprimir, prender, torturar e expulsar do País os que eram considerados opositores. Em consequência, inúmeros artistas e intelectuais saíram do Brasil, ou expulsos, ou por vontade própria. 

Nessa onda, Gilberto Gil e Caetano Veloso, embora nunca houvessem militado politicamente nas esquerdas, foram incluídos no “pacote” de limpeza política perpetrado pelos militares. Presos em 27 de Dezembro daquele ano, permaneceram presos até fevereiro do ano seguinte. Libertados, com os cabelos e barbas cortados à revelia, foram obrigados a permanecer em prisão domiciliar até o mes de julho, quando foram “gentilmente” convidados a sair do País. Em escala em Portugal, acompanhados das respectivas esposas, Caetano, procurado pela imprensa local, declarava o “fim definitivo da Tropicália”. Mas o destino foi Londres. Gil, mais sereno, aproveitou a estadia em Londres para conhecer mais sobre a música daqueles anos – Beatles, Bob Marley, Rock Progressivo… Caetano fechou-se na melancolia. Recebendo, meses mais tarde, a visita de Roberto Carlos, chorou diante dele por “horas”, segundo suas próprias declarações, extravazando suas imensas mágoas. Roberto, impressionado, escreveu, já de volta ao Brasil, a pungente canção “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos”, que gravou e divulgou. Esta seria regravada por Caetano anos mais tarde. O álbum representativo de Caetano para este período é “London, London”, repleto de canções melancólicas, todas em inglês, e que trazia a canção que dá nome ao disco. Esta, na voz de Gal Costa, fez imenso sucesso naquele ano, tendo sido regravado 15 anos mais tarde pelo Conjunto RPM.

O exílio durou cerca de 2 anos. Já de volta ao Brasil, Caetano retoma sua carreira e lança “Transa”, um álbum repleto de experimentalismos vanguardistas e que serviu de pano de fundo para o Show com o mesmo nome. Neste show, Caetano voltava a chocar, trazendo aos palcos o “androginismo”, lançado por David Bowie (uma forma de apresentar-se em que o gênero do artista -home/mulher – permanecia indefinido). Caetano, apresentando-se com brincos, batom, tamancos, bustiês e tudo o mais provocava, inevitavelmente, as reações controversas de sempre.

A partir de seu retorno ao País, Caetano consolida de vez sua carreira. Sempre polêmico, participa em 1.973 do evento PHONO 73, promovido pela Gravadora Phonogram, que se estabelecera no Brasil e havia contratado, sob a batuta do Diretor André Midani, a “nata” da MPB.  A controvérsia estabelecida então por Caetano foi a “ousadia” em apresentar-se ao lado do Cantor/Compositor Odair José, considerado “brega” e sem status para participar de tal evento. Caetano inicia aí sua carreira como “avalizador” de artistas. Inevitavelmente, a imprensa de esquerda promoveram seu “linchamento” estético. Deve-se a esse episódio o surgimento da expressão “patrulhas ideológicas”, usada por Caetano para expressar sua indignação.

CARREIRA, FAMA E RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

Com mais de 50 Álbuns publicados, livros editados, incursões no cinema (como ator e compositor de trilhas sonoras), incontáveis turnês e shows no Brasil e no Exterior, Caetano Veloso construiu uma rica e profícua Carreira. Recebeu inúmeros prêmios como reconhecimento pelo seu trabalho. Arrebatou o Grammy no ano 2.000 na categoria World Music pelo Conjunto da Obra. Foi eleito pela Revista Rolling Stone como o 4o. mais importante artista latino americano de todos os tempos, bem como o 8o. melhor cantor brasileiro, além de Discos de Ouro e outros. O que mais é significativo, no entanto, tanto no Brasil quanto no Exterior, é… o reconhecimento do público – o premio mais almejado por todo artista.

 

PARA SABER MAIS:

VEJA BIOGRAFIA E DISCOGRAFIA COMPLETA NO WIKIPÉDIA

VÍDEOS

“ALEGRIA, ALEGRIA” – III Festival MPB TV RECORD – 1.967

TROPICÁLIA” – Original/1.968

“LONDON, LONDON” – com Gal Costa/1.971

“TERRA” – Ao vivo/Caetano Veloso

“SAMPA” – Ao Vivo/Caetano Veloso

“SOZINHO! – De Peninha – Ao Vivo/Caetano Veloso

CAETANO PUTO, EM ENTREVISTA, RASGANDO O VERBO

PROGRAMA “RODA VIVA”/TV CULTURA/SP – Entrevista Completa – 23/09/1.996

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